A manchete do UOL de 3 de Novembro anuncia: “Previsão de vendaval: SP cancela 55 eventos municipais a céu aberto amanhã”.

Quando alguns de nós começamos a estudar sobre aquecimento global na escola, parecia uma realidade muito distante, não é mesmo? Mas se as manifestações de mudanças climáticas há 20 anos pareciam imperceptíveis para a sociedade, o que observamos agora são evidências graves de que o planeta não (nos) aguenta mais.

E, assim como a pandemia de COVID-19 colocou imediatamente em apuros o mercado do entretenimento, o que temos visto é, mais uma vez, esse setor ser um dos primeiros a ser fortemente impactado por essas mudanças. Eventos cancelados, público isolado depois de tempestades bruscas e até pessoas mortas. Esse é o cenário que estamos encarando hoje, em 2023, como previsto desde o nosso ensino fundamental.

Esse artigo busca explorar os primeiros impactos sofridos pela indústria de eventos ao ar livre, sobretudo festivais de música. Para isso, conversamos com alguns produtores de festivais e ressaltamos a urgente necessidade de adaptação para o novo tempo que chegou.

Como chegamos até aqui?

Quando falamos de mudanças climáticas, estamos nos referindo, quase que essencialmente, ao aquecimento global causado pela emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera.

Relatórios científicos estimam que a temperatura global da atmosfera já aumentou 1,1 ºC acima do considerado normal (temperatura média entre os anos 1850 – 1900, considerada a era pré-industrial) e que o limite seguro para a humanidade de 1,5ºC pode ser alcançado nos próximos 20 anos se a emissão de CO2 não diminuir drasticamente agora.

Foto: Matt Palmer/Unsplash.

Esse aumento na temperatura do planeta é o responsável por eventos climáticos extremos como tempestades, secas e ondas de calor. De uma forma geral, a projeção é que quanto maior o aquecimento, maiores a frequência e a intensidade desses eventos extremos e maior a probabilidade deles se tornarem relativamente comuns.

É importante frisar que o tempo presente é a hora de tomar providências. Na verdade, já estamos atrasados. 

A mensagem do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima] é cristalina: mudar agora e preparar para o impacto. As piores previsões dos cientistas estão se tornando realidade mais rápido do que o esperado, os pontos de ruptura estão se aproximando e o único nível aceitável de emissões é zero”, declarou a especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima, Stela Herschmann. 

Mais preocupante que a situação atual é a falta de qualquer evidência de esforços estratégicos a níveis nacionais, estaduais e municipais, para a adaptação aos efeitos relacionados com o clima.

Já estamos em crise e é indiscutível que estamos sofrendo o impacto do que já mudou. A luta agora é para não ser pior.

Influência da crise climática no mercado de festivais

Em um intervalo de 1 ano, tivemos muitas demonstrações de que a indústria do entretenimento está sentindo prejuízos graves da crise climática e deve começar também a adaptar ainda mais seus modelos de atuação.

No Mapa dos Festivais, localizamos no mínimo onze eventos nacionais e internacionais no último ano que sofreram com ondas de calor ou tempestades avassaladoras, capazes de deixar milhares de pessoas em situação de risco.

O Tomorrowland, que aconteceu em outubro de 2023, teve seu segundo dia cancelado devido a uma forte tempestade que atingiu a cidade de Itu (SP). Áreas internas do festival, estacionamentos e vias de acesso ficaram danificadas por conta dos temporais.

Tomorrowland Brasil 2023. Foto: Divulgação/Facebook.

Para não comprometer o conforto e a segurança do público, o (Super) MECA, no Rio de Janeiro, antes planejado para ser na Marina da Glória e iniciando à tarde, mudou-se para o Morro da Urca, se tornando MECA (Urca) e iniciando a noite. A mudança feita na semana do evento, foi devido à previsão de altas temperaturas e chuva. 

Já o Daki Fest, em São Paulo, cancelou todo um final de semana de programação depois da previsão de fortes tempestades na cidade em novembro de 2023.

Além desses, como não mencionar as chuvas fortes no REP Festival em fevereiro, ventania e chuva no Doce Maravilha em agosto, tempestade no The Town em setembro, e o calor extremo no show da Taylor Swift do Rio de Janeiro em novembro, (que não era festival, mas tinha estrutura semelhante) que também marcaram o ano de 2023 com todos os seus prejuízos e falta de planejamento para eventos climáticos extremos, fossem eles previstos ou não.

O Festival Avante teve sua primeira edição em novembro de 2023 e enfrentou essas questões em Porto Alegre. O evento iria acontecer inicialmente na Marina Navegantes São João, em uma região que fica no nível do Rio Guaíba. Depois de fortes chuvas e alagamentos nesta região da cidade, a produção entendeu que a melhor decisão seria escolher outro local.

“A gente tem que tomar uma decisão porque cancelar um festival é algo muito dramático. Tem os contratos com artista, uma parte da logística provavelmente já comprada e todo um valor que tem que ser pago para as pessoas que já trabalharam na pré-produção. Então, às vezes a decisão de mudar o local vem na semana ou no mês do evento. Se cria muitas perguntas e não temos muito tempo para respondê-las.”

– Bruno Melo, produtor do Festival Avante.
Festival Avante 2023. Foto: Divulgação/Instagram.

Outra medida da produção foi contratar tendas e deixar em stand-by, caso chovesse e fosse necessário abrigar o público de um dia para o outro.

“A gente precisa prever o que pior pode acontecer. Se eu não colocar a tenda, tudo bem, mas se colocar, ela tem que ser previamente planejada e aprovada pelos bombeiros. Então, os eventos vão ter que trabalhar com plano A, plano B, plano C, já na sua criação. […] No sábado choveu pouco, mas domingo foi insano. As tendas foram a salvação do evento.”

– Bruno Melo, produtor do Festival Avante.

Festivais independentes (sempre) na mira

Organizar festivais é uma tarefa logística e financeiramente desafiadora e que, em muitos casos, passa-se um ano inteiro produzindo os detalhes para que tudo saia conforme planejado. Ficar à mercê do clima pode acarretar prejuízos incalculáveis. Imagina então, para festivais de pequeno porte, independentes, com pouco ou nenhum apoio financeiro? 

Muitos festivais descentralizados e independentes não resistiram à pandemia de COVID-19, e muitos podem também deixar de existir nesta fase de adaptação dos novos tempos. 

As inquietações são muitas: todos vão ter condições de ter um planejamento de segurança estratégico contra eventos climáticos surpresas? Como irão proceder em casos de cancelamentos de shows e contratos em função do clima?

E para todos os eventos independente do tamanho: quais os critérios serão usados para decidir, em um curto período de tempo, se um evento será adiado, cancelado ou mantido? 

Festivais e a compensação da pegada de carbono

Não pense que o setor de entretenimento nunca agiu sobre os efeitos das mudanças climáticas. Há muitos anos, vários festivais do Brasil e do mundo já se preocupam em mitigar uma das raízes do problema: a emissão de gases do efeito estufa. 

Uma das maneiras de diminuir os efeitos da produção de grandes eventos, é medir a quantidade de gases de efeito estufa (pegada de carbono) que o festival emite e promover ações de sustentabilidade que visem compensar a pegada de carbono na atmosfera. A diminuição e destinação correta dos resíduos de um festival também são ações que previnem indiretamente a emissão de gases tóxicos na atmosfera. 

Plantio de árvores, no Rock The Mountain 2019. Foto: I Hate Flash.

O No Ar Coquetel Molotov em Recife é um grande exemplo no Brasil e teve como sua primeira ação de sustentabilidade a substituição de copos plásticos por copos reutilizáveis da Meu Copo Eco, ainda lá em 2013: “Eu nunca vou esquecer da foto que a gente tirou assim que acabou o evento e estava tudo limpo!”, comenta Ana Garcia, produtora do No Ar Coquetel Molotov.

Hoje, o festival conta com a parceria da Ecoe Sustentabilidade para distribuição de bituqueiras, coleta responsável e doação dos materiais descartados para cooperativas de reciclagem.

Já em parceria com a Eccaplan, o Coquetel Molotov também utiliza a estratégia da compra de créditos de carbono, que destina parte do investimento do festival a projetos ambientais auditados e certificados que são viabilizados com o incentivo financeiro.

“A gente tinha muita preocupação. Apesar de saber que plantar árvores é muito importante, sabemos que 80% do plantio não pega, né. Então a gente queria investir em projetos sustentáveis já existentes.”

– Ana Garcia, produtora do Coquetel Molotov.
Público do No Ar Coquetel Molotov. Foto: Eduardo Filho.

Além do No Ar Coquetel Molotov, os festivais Rock The Mountain, no Rio de Janeiro, o C6 Fest em São Paulo e os festivais Floripa Eco Festival, Arvo Festival e Festival Saravá, em Florianópolis, também contam com ações que visam diminuir o impacto ambiental causado por eventos de grande porte.

Você conhece outros festivais com ações de sustentabilidade que visam a diminuição da emissão de CO2 na atmosfera? Comente aqui.

Para concluir: Mais perguntas que respostas 

O que é mais assustador é que todas as perguntas levantadas, precisam  ser respondidas imediatamente. Não são questões do futuro, elas já existem e já devem fazer parte de discussões sérias e de políticas públicas claras e eficazes.

O alerta com gosto de nova realidade que fica para a indústria é que, com todas essas mudanças no clima, tempestades e ondas de calor devem fazer parte do planejamento de gestão de segurança dos festivais mesmo quando a previsão meteorológica apontar tempo bom.

O calor está cada vez maior e repensar a experiência e bem-estar do público é urgente. Distribuição de água e espaços de sombra são o mínimo e não podem ficar dependentes apenas de ativações de marca, como feito em muitos festivais. O público exige segurança e bem estar. Acabou a era de festival ser sinônimo de perrengue.

Podemos afirmar que os produtores de eventos são os principais responsáveis por proporcionar uma estrutura que ofereça bem-estar e segurança ao público. Mas existem coisas que só os frequentadores podem fazer por eles. Medidas básicas como: 

  • Beber água 
  • Usar protetor solar
  • Se preparar para sol e chuva. Além do protetor solar e óculos escuros, tenha uma capa de chuva com você;
  • Use roupas leves e confortáveis;
  • Cuidado com a alimentação: nem demais nem de menos;
  • Precisa mesmo ficar na grade? Avalie seus limites e aproveite o show com responsabilidade;
  • Conheça o mapa do evento e saiba a localização dos postos de atendimento;

Os desafios são imensos e é essencial a colaboração de todos. Festivais de música são das mais importantes manifestações culturais e coletivas de um país e são essenciais para a manutenção da indústria musical brasileira como conhecemos hoje. Força motriz para novos artistas e geradores de milhares de empregos, diretos e indiretos. Assegurar que continuem sendo eventos seguros, encantadores e positivamente inesquecíveis para todos é urgente.

Leia mais sobre o assunto:

Como estamos? – Panorama da situação atual das mudanças climáticas globais

O que é pegada de carbono? – Conheça a origem da expressão

Quanto você emite de CO2 para atmosfera? – Essa calculadora te ajuda a entender essa conta

Descubra também: O boom dos festivais de música brasileiros é sustentável?